sexta-feira, 9 de outubro de 2009

In Finito


Estranha a sensação.

Vagava pelos corredores do antigo apartamento.

Os aposentos estavam negros, mas visíveis pelo brilho de uma noite azul, pelo horizonte brilhante de uma metrópole que não dorme.

Assoalho rangia sob seus pés.

Chegou a um longo corredor que apresentava, em seu fim, uma grande janela de vidro.

Deteve-se diante da cena,

E iniciou uma corrida lenta ao próprio reflexo.

Aumentava as passadas em ritmo baixo, mas já sentia o ar contra o peito.

Confrontou sua imagem em um orgasmo de vidros estilhaçados.

E começou a cair.

Na vertigem do movimento, pôde sentir um padrão de raciocínio em sua mente; em instantes de segundos, já não os acompanhava, e sua realidade mudou.

Absurdamente, encontrou-se preso no momento, preso na queda.

E deu-se conta de que não mais existiam medidas para o tempo de seu choque contra o solo. Deu-se conta de que aquele momento havia se tornado seu novo mundo, de que aquela nova existência afirmava sua própria matriz.

E passaram-se eras até que se encontrasse acostumado com a situação.

Pois pode-se dizer que passou eternidades odioso do momento de encontro com o chão, já que não chegava e provavelmente nunca chegaria; nunca na ilusão verdadeira do que era sua vida, ali, qualquer que fosse.

Mas o chão.

Que parecia tão próximo na nostálgica ocasião de quando tacou-se; e, no instante, tão distante, após infinitos ciclos de existência.

Condenado à vida, na morte.

O chão.

Que não chega.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

(B)anal

Sexo, fezes, violência, morte (não necessariamente nesta ordem).

São, sem dúvida, os mais notáveis temas deste blog.

Dei-me conta do fato hoje, há minutos. Porém, não surpreso estou.

Actually, estou um tico decepcionado

Pois que se percebe a banalidade de meu intelecto e do que me motiva à produção pseudo-literata. Banalidade fruto de conflitos padronizados pra caralho – já que, ora, convenhamos: quanto teminha lugar-comum; pelo menos aos que consideram-se indagadores existencialistas (meu caso).

Quanto além se pode responder ou perguntar, igualmente, é outro lado da moeda.

Mas, mesmo assim, que saco.

Que saco enfiar o nariz nesta grande muralha intelectual.

De novo, de novo e de novo.

Seria irônico;

Eu morrer com um tiro na cabeça, enrabando um cadáver anônimo, num esgoto qualquer.

Ainda mais engraçado;

Eu entrar numa neura escatológica, comer a bosta de alguém e morrer intoxicado.

Ou;

Ainda estranho;

Seria eu não morrer nunca.

Isso seria fudidamente estranho.

Outra:

Quando você é imortal,

Existem justificativas ao suicídio?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Rubores da Vida

Cara.

É um saco.

Tudo é um saco.

Do que você tem vergonha?

Tenho vergonha de muitas coisas - digo - que não transformam minha existência numa parada infernal; mas que, muito sim, me são estranhas.

Explico.

Exemplo:

Envergonho-me de comprar roupas.
.
Não pela afronta à boa moral, não pela afronta ao não-consumismo.
.
É uma vergonha genuína.

Porque, entenda: sou um enjoadinho fruto do meio, apesar de toda a máscara rebelde que lhes mostro quinzenalmente (na média).

E, por tal fato, quando o assunto é roupa, mesmo que tratado como banalidade, não existe em minha pessoa desligamento o bastante para manutenção de um armário socialista.

Pois quando chega o insustentável momento da necessidade por novas peças, dirijo-me ao podre mundo elitista, representado por ruas como a Oscar Freire ou por complexos-pocilga, como Shoppings.

E respeito essa vaidade. Foda-se.

Ela não faz mal a ninguém – aliás, principalmente, não faz mal a mim – e isto é suficiente para que eu cague para críticas a respeito do ato.

Mas – é o que falei – a situação me constrange.

Talvez por representar pequeno desvio do que possuo como orgulhoso caráter questionador. Pequena fraqueza. Vai saber.

Porém, repito: não imaginem um puto dum dilema lendário com a situação.

Pois que apresenta, simplesmente, um constrangimento superficial – algo incômodo quando, duma prateleira, escolho calças e camisetas, ou sutil aflição pela hora em que enfio-me no provador; ainda quando passo a porra do cartão para pagar a conta – mas, hey, nada que me mate por dentro.

Enfim.

Dá pra sacar.

E, este, um dos detalhes.

Outras situações?

Ora, sim.

Mendigos.

Não sensibilizam-me. Mas me constrangem.

Reuniões familiares – pooorra, como não?

Rodas de amigos imersas em assuntos futebolísticos.

...Mais?
.
Claro.
.
Programas idiotas de televisão – opa.

Academias de musculação; personal trainers.

iPod. iPhone.

Assoar o nariz.

Ficar de pau duro DO NADA.

Essas coisas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Se Fudeu, Gláucio


O coroinha Gláucio gritou.

Gritou, de cara indignada e beirante duma expressão de ódio, quando presenciou, no vestiário da paróquia, padre William, vestido de mulher, sentando em nada menos do que um cone de trânsito. A englobar, com o cu, cerca de vinte centímetros da ponta do objeto – quase ultrapassando os limites da primeira linha preta; quase na segunda linha do cone, a amarela.

No instante, o que ocorreu foi que padre William assustou-se com o garoto, perdeu o equilíbrio, desvencilhou-se do cone enquanto caiu, e, no momento em que atingiu o gelado chão de azulejos, desferiu uma bela rajada de bosta mole e marrom - esparramada pra caralho.

Gláucio. Boquiaberto.

E o padre, então, levantou-se, enroscado no vestido rosa que usava - de látex, curto a ponto de enaltecer ao ar livre um belo dum saco clerical. Peludo, enrugado como só alguns sacos podem ser. Almofada para um ridículo pênis ereto, fino – fino demais.

Só que William não permaneceu sobre as pernas por muito tempo.

Pois que dirigiu-se ao pré-adolescente, mas pisou na própria bosta e foi à frente, com as pernas jogadas para trás.

Seu queixo delineou um arco invisível no ar e terminou espatifando-se na porcelana do solo. Ossos e lascas jorraram à altura de um metro do chão, num baque seco – num ferimento seco, também. Pois padre William permaneceu intacto por mais cerca de cinco segundos, antes daquela horrenda fratura começar a sangrar; tornar vermelho o pós-deformado semblante do velho homem.
.
Absurdo.
.
E - porra - Gláucio.
.
Cacete.
.
Que bosta de situação, hein?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Utopia Virtual

William Burroughs, certa vez, manifestou interessante alegoria.

De que, se encararmos a democracia como um organismo, suas instituições representariam uma série de tipos câncer (instituições, só para constar, no foco, aquelas engrenagens corporativas que, a falar por baixo, CONTROLAM toda e qualquer sociedade).

O argumento parte do raciocínio de que tais torres, possuidoras de famigerado poder coercitivo, são facilmente capazes de corromper os homens – por desde seus convencimentos em forma de ideais às possibilidades de maquiavelismo que seus privilégios, em termos de poder burocrático, proporcionam.

Ou seja: qualquer instituição, desde que bem estrutura e provida de recursos, pavimenta caminhos para poderoso egocentrismo monetário (óbvio) e de decorrência social, pois é fonte de facilidades, de pretextos e justificativas para certa corrida material e ideológica. Certa pilhagem, combustada por manipulação populacional – e isto corrompe; torna-nos insensíveis às delimitações de bondade e nobreza (em conotação não-babaca, por favor).

PAUSA – O tópico parece pseudo-acadêmico, I know, mas muita calma, seus putos, pois acredito que o cerne desenvolvido será de interesse universal.

Retomada:

Ok. Instituições representam o câncer – são geradoras de corrupção. E também calculável que, pelo fato da menção de Burroughs à democracia, deduz-se que o autor acreditava no ente Estado – pois democracia o pressupõe, por ser um regime governamental.

Agora – terreno estabelecido - como fugir da proposta, para que se possa utilizar de catarse com o problema?

Serão estas instituições, as poderosas e que pautam a liberdade de rebanho humano, de criação elitizada, intelectual e, por isso, artificial? Ou serão, estas instituições, entes orgânicos da vida em sociedade, de surgimento natural e irrepreensível? (o que, no caso, terminaria por encerrar a pauta, right fuckin’ now, pela não solução aparente, devido à inevitabilidade do tema)

E, aqui, complicação, pois, pela honra que devo a um texto de perfume sociológico, natural o movimento de que, no mínimo, sugira-se nuance de solução a toda essa bosta – já que a raiz do mal citada não é de crédito meu; por isso, não suficiente.

Doravante, então, tentemos levantar algumas questões.

Caso o artificialismo seja o quadro, podemos descartar a possibilidade da derrubada de instituições vigentes para a formação de novas, constituídas sob alicerce reformado – já que claro exemplo isto seria de um círculo vicioso, pois que a corrupção do homem é em caráter geral e não diferenciada por ímpetos e boas qualidades individuais.

Portanto, como arquitetar realidade social não regulamentada por estas personalidades, pessoas jurídicas, despóticas da moral?

O que poderia surgir na piscina desgovernada das grandes metrópoles que desempenhasse função substituta das instituições? Ou, ainda melhor: o que poderia ser feito para que tais organizações nem sequer necessitassem de existência?

Sobra-nos, em vista disso, análise do status quo e de suas principais vertentes institucionais – as que, de fato, aprisionam a capacidade existencial do ser humano – em tentativa por fundamentação.

E são elas:

Partidos políticos, instituições educacionais, instituições religiosas, e a – onipresente, onisciente e onipotente – realidade dos ditadores econômicos.

Tudo soa intransponível. Absolutamente enraizado.

Seremos capazes, como sociedade, de conceber tal evaporar? Tal utopia? A da suposta queda destes tatames imperialistas?

Todo princípio de pensamento, se alicerçado por histórico de dinâmica populacional, logicamente, apresenta falhas impetuosas para estes fins; pois, ao menos em teoria, nota-se a lacuna absolutória para tais meios. Por outro lado, ao pensarmos em possibilidades futuras, atreladas à evolução tecnológica, algo pode, sim, vir à mente.

E de maneira extremamente vanguardista.

Olhemos à nossa volta.

Ou melhor.

Cliquemos à nossa volta.

Sim - A internet.

Ao não alienado – o que se pode notar?

Pois global já é a vertente do novo e mágico compartilhamento de informação e conteúdos.

Porquanto possui-se, hoje, portal que manifesta, de maneira abstrata, e na forma de oceanos individuais, ferramenta revolucionária no sentido de absorção de dados e formação intelectual.

Exemplos banais ilustrativos são inúmeros – entre eles, a Blogosfera (lixo de termo), todo o mundo Wiki e de espaços egocêntricos, porém púbicos, que alimentam motivações para manutenção deste novo campo virtual (aqui, exemplos como Orkut, My Space, Facebook , O Caralho etc.).

Fundamentalmente, concentração para a nova capacidade do usuário padrão da internet de poder criar, tornar público e manifestar dizeres, opiniões, trabalhos, feitos intelectuais ou científicos etc. – assim, a tornar-se arquiteto e juiz solidário da tecnologia e suas ramificações, padecida por suas responsabilidades.

Ao lado com obviedade de que a realidade descrita encontra-se em estado inicial de formação e, por isso, ainda apresentadora de resultados neutros - se analisada real eficácia de sua função por mudanças estruturais (estruturais, de fato, em seu domínio – pois lembremos que aqui estamos a discutir quedas de grandes e opressivos conglomerados de poder).

Mas que conferido, por outra banda, o potencial de sua engrenagem.

Pelo motivo de que, se considerado o natural e já presente anabolismo da linguagem, com certa ousadia promove-se vislumbre de época em que toda e qualquer manifestação de informação viajante estará infectada por tal modo operacional.

E aqui, apesar de tardio, o ponto:

Prevejamos o mundo, como o conhecemos, a deparar-se com tamanha realidade - a da absoluta e vigente troca de conteúdos, na forma desta rede invisível e individualmente ativa de operação – que talvez dê-se o início de uma era em que o pragmatismo institucional citado anteriormente torne-se obsoleto.

É que surgirá possibilidade de auto-formação e regulagem orgânica de valores que serão, arraigadamente, filtrados por uma teia (também invisível), de certa maneira, democrática. Ao fato de que, com possibilidade de liberdades e voz pela web, qualquer de seus usuários será dono de (por mais que relativa) sinceridade anônima e pública (caso escolhida), passível de improvável ignorância de coerção, pois utópico será monopólio ditatorial de tal aspecto.

Ou seja,

Será janela, onde, talvez, verdadeira seja a capacidade de formação massiva e comunitária de conhecimento e troca de experiências. Por um plano subjetivo de opções individuais. Quando, quem sabe, poder-se-á educar um filho fora dos muros de uma escola e segundo vigência liberta de concepções de mundo. Quando todos serão reguladores de transações econômicas, religiosas e ainda políticas – já que crédula uma unificada vontade geral e solitária, simultaneamente, pois existirá aparato tecnológico responsável e suficiente para a investida.

Porém, de igual modo, possivelmente provável que, com esta dinâmica, nasçam novos instrumentos de manipulação - da mão de grupos análogos aos que têm as rédeas das instituições práticas postas à prova pelo texto.

Aí, neste caso, foda-se – e que venha a nova dinastia sanguinária.

Porque o mundo é negro; e o ser humano, também – disso sabemos.

Mas temos aqui, ao menos, luz de uma era em que, apesar de idealizada, brecha existirá para remexida e conseqüente transferência de impunidade.

E vamos combinar que isso já é válido.

Porra.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Ó, Sofrimento

Difícil é passar fome, é perder um filho. Lutar contra um câncer, ser odiado pelos pais, estar numa cadeira de rodas.

Não. Não é.

Digo.

É. Também.

Pois igualmente duro pode ser comer algo de que não se gosta, encarar a distância semanal de um filho que foi ao acampamento ou enfrentar uma gripe. Não receber “boa noite” da mamãe, também; talvez torcer um pé.

Como um grande pensador já disse, certa vez: “Quem não possui forças para lutar contra um câncer?”.

Pode soar intolerante, mas, percebam, não é.

Concepção de sofrimento, tal como a própria capacidade pessoal de se lidar com ele, é formada na psique de cada um de nós sob adubo particular, colorido – variável como as próprias “verdades” do mundo.

Por isso, é de solidariedade intangível a sensibilidade por problemas alheios, pois, se a cruz é pesada a todos, quem serão as verdadeiras vítimas?

Um vilarejo africano desprovido de medicamentos, comida e água potável – uma mãe negra aidética observa abutres arrancarem os olhos da carcaça de seu falecido filho de sete anos.

Um apartamento no centro de Manhattan, com vista ao parque, repleto de empregadas, cozinheiras, pratarias e obras de arte – uma mãe de cabelo feito, entupida por antidepressivos, recebe uma massagem nos pés e chora; não sabe por quê.

Quem sofre mais? Quem é merecedor de pena? Quem é desprivilegiado?

Aos mundos internos, qual a medida padrão para tormentos? Ela sequer existe?

Por que, então, presenciamos veemente instinto pelo reconhecimento de vítimas? Pela adoração ou pseudo-luta ideológica por certa equidade de bem-estar existencial?

Talvez gostemos de selar estes status para simplificar as nuances, as milhares de complicações inerentes à diabólica interpretação dos acontecimentos. Talvez seja este o esforço por um maniqueísmo cru que traz sentido a uma infinidade de comportamentos em nossas rotinas; talvez seja esta uma máscara para a verdadeira constatação de que não somos capazes de entender qualquer detalhe de qualquer coisa.

Muito provavelmente o dito é a verdade.

Mas não. Não nos tornemos indiferentes com a lágrima terceira. Aceitemos esta cortina, pois qual sua finalidade se não a de tornar a respiração menos dolorosa?

Não queremos viver no escuro.

Queremos?

domingo, 19 de julho de 2009

Vestidos Mortos

Certo dia, certa época, os cadáveres passaram a voltar à vida em uma situação pontuada: para vestirem-se com roupas post-mortem, antes de preparados ao andamento de seus supostos enterros.

Sim, empregos foram extintos com este fato, quando uma série de competentes empregados de funerárias encontrou-se na rua, intrigada, desfrutando de uma insegurança profissional nunca antes posta à prova; pois, ora, convenhamos, cargos estes, os menos requisitados no mercado de trabalho. Pelo simples fato de que neles, confrontamo-nos, dia após dia, com o Medo Natural: A Morte.

Afora o estardalhaço do choque, tudo voltou a uma saudável rotina social – em muito pouco tempo, se quer saber. Mas não que o período não tenha sido deveras interessante. Estouraram guerras civis, disputas nucleares, iconoclastia infernal - cerca da metade da população mundial foi dizimada por uma série de eventos sanguinários, místicos, religiosos, peripécias que poderiam ter saído da mente de algum doentio cineasta dos anos dois mil.

Por outro lado, desconsiderados detalhes e cores, a verdade é que foi constatado, após anos de especulação, que, de maneira simples, os mortos reanimavam-se, EXCLUSIVAMENTE, para colocarem as roupas com que seriam postos no caixão e enterrados – E NADA MAIS.

Perceba o discorrer:

Os indivíduos morrem (na integridade física – quando não são mutilados por acidentes ou psicopatas), são transportados, para onde quer que seja, aos preparativos do velório e enterro e, no preciso momento logo depois de lavados e secos – TCAHN - abrem os olhos e tomam controle dos próprios corpos.

Nada falam, não manifestam sentimentos. Movem-se duros, com misteriosa perícia sobre como e onde alcançar roupas (vestidos, ternos etc.), sobre os detalhes a respeito da colocação das meias, maquiagem, nós de gravatas e de cadarços.

Permanecem quietos, não pousam olhares sobre quaisquer coisas ou pessoas alheias a seus preparativos e vestimentas.

Quando terminam. Voltam às mesas, caixões, ou o que signifique seus devidos lugares no momento – e desarticulam-se, de novo; morrem pela segunda vez (se considerarmos o despertar como representação de “vida”).

Curioso anotar sobre os que morrem e não são levados a qualquer tipo de preparo, funeral ou enterro. Estes não despertam. Estes permanecem carcaças, esquecidas nas ruas ou quietas durante cremações desejadas por “transcendência” sem ritual.
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Sim.
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Claro: foi tentada a captura de cadáveres acordados - mantê-los presos, longe das peças de roupa e utensílios estéticos. Mas, à menor ameaça de privação destes detalhes, desligavam-se feito robôs e tomavam suas respectivas posições de defunto.

Aliás, TUDO foi tentado.

Acontece que pragmatismo algum surgiu sequer do mais elaborado experimento. Zero de explicações.

Como mencionado, o tempo nadou; a normalidade da situação foi conquistada com louvor, como pauta valiosa da condição humana: adaptação movida por ilusões.

Retomaram suas rotinas os programas de televisão, os bacharéis que não acham empregos e o preconceito metropolitano.

E passou a existir, nas funerárias, opção para os que desejavam assistir seus falecidos companheiros enfiando-se em roupas e base facial – onde e quando lágrimas às vezes eram esquecidas, mas nunca uma câmera digital.